Publicação reúne conhecimentos ancestrais de mulheres e será distribuída gratuitamente

Encontros do projeto Reverdecer reuniram mulheres de diferentes territórios para troca de saberes e práticas de cuidado

Encontros do projeto Reverdecer reuniram mulheres de diferentes territórios para troca de saberes e práticas de cuidado | Crédito: Mirella Rabaioli

Uma iniciativa que articula memória, território e práticas de cuidado construídas coletivamente por mulheres será apresentada ao público neste sábado (25), no município de Maquiné. A cartilha Mulheres-árvore – Encontros da Farmacinha em Territórios de Bem Viver sintetiza experiências desenvolvidas ao longo do projeto Reverdecer e propõe visibilizar saberes tradicionais que, segundo as organizadoras, sustentam modos de vida e relações comunitárias em diferentes regiões do estado.

O lançamento ocorre às 15h, no Espaço Cultural AMÓ, lugar de Bem Viver, na localidade de linha Cachoeira, reunindo atividades culturais e um espaço de diálogo entre lideranças femininas de diversos territórios. A publicação é resultado de um processo iniciado em 2025, marcado por oficinas, rodas de conversa e ações formativas voltadas à saúde, memória e uso de plantas medicinais.

Saberes que atravessam territórios

A cartilha nasce da vivência coletiva de mulheres vinculadas à Farmacinha Comunitária de Maquiné, espaço que há anos atua na promoção de práticas populares de cuidado e no fortalecimento de vínculos comunitários. Ao longo do projeto Reverdecer, essas mulheres organizaram encontros com grupos de diferentes territórios, ampliando a troca de conhecimentos e experiências.

Participaram das atividades representantes de comunidades indígenas, quilombolas, assentamentos rurais e coletivos urbanos, localizados em municípios como Viamão, Porto Alegre, Três Cachoeiras, São Francisco de Paula e Triunfo. Esses encontros foram estruturados a partir de práticas como o uso de plantas medicinais, debates sobre saúde da mulher e processos de formação em memória e patrimônio.

De acordo com a pesquisadora e escritora Michele do Caminho, que integra a equipe da publicação, a cartilha busca registrar conhecimentos que emergem da relação cotidiana com a terra e com os territórios. Segundo ela, o material foi construído como um “mosaico de saberes”, reunindo diferentes linguagens – como poesia, fotografia, ilustração e jornalismo – para dar conta da complexidade dessas experiências.

Produção coletiva e protagonismo feminino

Um dos elementos centrais do projeto é o protagonismo das mulheres em todas as etapas do processo. Desde a concepção das atividades até a pesquisa, registro e organização dos conteúdos, a iniciativa foi conduzida exclusivamente por mulheres que participam da Farmacinha.

Essa escolha, segundo as organizadoras, dialoga com a própria natureza dos saberes compartilhados, historicamente transmitidos por mulheres em diferentes culturas e comunidades. Ao registrar essas práticas, a cartilha também se coloca como instrumento de valorização de conhecimentos frequentemente invisibilizados por modelos hegemônicos de produção científica e cultural.

Além disso, o processo de construção da publicação envolveu a escuta ativa das participantes e o reconhecimento das especificidades de cada território. As experiências reunidas não são apresentadas como um conjunto homogêneo, mas como expressões diversas de formas de viver e cuidar, articuladas a contextos sociais, culturais e ambientais distintos.

Cultura, memória e políticas públicas

A realização da cartilha ocorre em um contexto mais amplo de políticas públicas de fomento à cultura. O projeto foi financiado pela Política Nacional Aldir Blanc, por meio da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, mecanismo que tem buscado apoiar iniciativas culturais em diferentes regiões do país.

Além disso, o curta-documentário Um Dia na Vida de Maria, que será exibido durante o lançamento, foi produzido com recursos da Lei Paulo Gustavo, via Prefeitura de Maquiné. Dirigido por Mirella Rabaioli, o filme acompanha o cotidiano de Maria Teresa Gonçalves e propõe uma narrativa sobre território e saberes a partir de gestos cotidianos relacionados ao uso de plantas.

Segundo a diretora, o documentário parte de uma pergunta simples – para onde Maria vai toda semana carregando plantas – para construir uma reflexão sobre práticas de cuidado e relação com o ambiente. A obra dialoga diretamente com os temas abordados na cartilha, ampliando o debate por meio da linguagem audiovisual.

Distribuição e acesso público

Após o lançamento, a cartilha será distribuída gratuitamente em diferentes espaços, como escolas, bibliotecas, associações comunitárias, movimentos sociais e centros culturais. A proposta, segundo a organização, é garantir que o material circule amplamente e possa ser utilizado como ferramenta de formação e fortalecimento de redes.

Também está prevista a disponibilização de uma versão digital, acessível ao público em geral. A iniciativa busca ampliar o alcance do conteúdo, permitindo que os saberes registrados possam ser compartilhados para além dos territórios diretamente envolvidos no projeto.

Encontro de vozes e celebração cultural

Cacica Iracema Gah Té Nascimento é uma das participantes do projeto | Crédito: Mirella Rabaioli

O evento de lançamento será marcado por uma roda de conversa com lideranças femininas dos territórios participantes, que irão abordar o patrimônio cultural e imaterial construído ao longo do projeto Reverdecer. A atividade pretende criar um espaço de diálogo sobre os desafios e as potencialidades desses saberes no contexto atual.

A programação inclui ainda a apresentação musical de Ananda Tangará, cantora e compositora que integra o grupo de mulheres da Farmacinha Comunitária. Seu trabalho, segundo a organização, dialoga com temas como natureza, memória e pertencimento, articulando expressão artística e educação ambiental.

Ao reunir diferentes linguagens e experiências, o lançamento da cartilha se configura como um momento de síntese de um processo coletivo que articula cultura, território e cuidado, colocando em evidência práticas que, embora muitas vezes pouco visíveis, seguem estruturando formas de vida em diferentes comunidades do Rio Grande do Sul.

 

Publicação orginal: Site Brasil de Fato
24/04/2026

 

 

 

 

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