CARTILHA
MULHERES - ÁRVORE
A Farmacinha existe há 33 anos no Vale da Solidão, em Maquiné, pequeno município rural do Litoral Norte gaúcho, permeado de Mata Atlântica, rios e cachoeiras, habitado por povos originários, quilombolas e imigrantes. Somos um grupo de mulheres que se reúne às quartas-feiras pra fazer fitoterápicos e se fortalecer, tendo como raízes a saúde integral, a agroecologia, a luta das mulheres, a justiça socioambiental e o bem viver.
No projeto Reverdecer, contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura – PNAB por meio da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul – Sedac, optamos por materializar as memórias nesta cartilha, com textos, fotos e ilustrações.
Estas páginas contam modos de ser, cosmopercepções, lugares, culturas e lutas que permeiam as redes de bem viver nas quais a Farmacinha está inserida. A primeira visita foi na nossa vizinha Tekoa Guyra Nhendu, aldeia Som dos Pássaros, do povo Guarani Mbya, que tem Julia Gimenes como árvore-mãe. Julia frequentou a Farmacinha por alguns anos com sua família e, vez ou outra, é presença querida nos nossos encontros. Nossa segunda saída foi para Viamão, no
Grupo Mulheres da Terra, do Assentamento Filhos de Sepé, que integra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A terceira visita foi à Retomada Gãh Ré, um reduto de verde e nascentes no Morro Santana, em plena Porto Alegre, cuja cacica e liderança espiritual, Iracema Nascimento, é Gah Té, do povo Kaingang. Já o quarto encontro ocorreu num dia muito especial, 31 de outubro, conhecido também como Dia das Bruxas. Fomos fazer a Pomada Sagrada, que é elaborada anualmente, somente nessa data, no Grupo de Mulheres Filhas da Terra, de Morro Azul, uma “Farmacinha” em Três Cachoeiras, que é muito importante na história das Farmacinhas e do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) no estado. Na quinta saída, fomos até a Serra Gaúcha, em São Francisco de Paula, para conhecer a Retomada Xokleng, liderada pela cacica Cunllung. E, por último, estivemos na Comunidade Kilombola Morada da Paz – Território de Mãe Preta, em Triunfo, próximo à capital, liderada por mulheres e por duas figueiras ancestrais. Também contamos com uma formação em Ginecologia Natural na Farmacinha, em que ativamos a autonomia nos cuidados com nossa saúde íntima.
Somos imensamente gratas a essas mulheres que nos receberam e aos seus territórios. Agradecemos também às nossas árvores mais antigas, Maria e Rafinha, que possibilitam que a Farmacinha exista e se perpetue. Seguiremos tecendo essas redes entre povos e mulheres, recontando nossas histórias, honrando nossas memórias e reproduzindo os saberes que permitem que a vida possa ser bem vivida nesta terra. Boa leitura!