Farmacinha Comunitária

No município de Maquiné, entre a serra e o mar na região do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, ao sul do Brasil, existe uma “farmacinha” natural e comunitária, onde mulheres se encontram semanalmente há mais de três décadas para preparar medicinas com plantas e se fortalecer. 

Nos denominamos Filhas da Esperança e, para além do trabalho em grupo com as plantas, nos guiamos pelo princípio da saúde integral em práticas de re-existência, cultivando autonomia, agroecologia, bem viver e justiça social. 

Este livro foi criado com a intenção de resgatar as histórias da Farmacinha, interligando-as às vivências das mulheres que dela fizeram e fazem parte. Ele compõe o projeto Frascos de Memória: Farmacinha Filhas da Esperança, realizado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022, Lei Paulo Gustavo, Edital de Pesquisa, Registro e Memória, e executado por mulheres que fazem parte do grupo.

Além do livro, o projeto possibilitou a realização de pesquisa histórica e jornalística, organização de acervo, exposição fotográfica e rodas de leitura. No corpo da pesquisa estão a escuta e a leitura de entrevistas, respostas a formulários, dissertações e artigos acadêmicos, reportagens externas, livros, cartilhas sobre o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e conversas, muitas conversas. As viagens desta pesquisa serviram também para o compartilhamento entre as mulheres que a fizeram, fortalecendo laços de solidariedade e de afeto.

Após anos em que a bruxa vó Maria manteve a Farmacinha existindo com muita garra, a duras penas, atravessando desafios pessoais, coletivos e até mesmo uma pandemia, os projetos atuais têm sido fundamentais para revigorar essa iniciativa tão bonita – e necessária. Uma nova fase se iniciou, com novo fôlego, e conhecer a fundo a história da Farmacinha nos fez ter a dimensão da beleza e importância dessa trajetória, bem como da força e da coragem de nossas matriarcas.

Como conta Rafinha, a Farmacinha se sustenta sobre três pilares: grupo, plantas e ternura. Assim como realizamos o trabalho com as plantas coletivamente com ternura, neste livro foi igual. Esperamos que sua leitura possa despertar ternura e ser semente boa pra cura: dos corpos, das relações, da terra, em toda sua necessidade e abrangência. 

Mais do que uma colheita dessa agrofloresta que, com muito trabalho, se expandiu e deu inúmeros frutos, fazemos deste livro semeadura.